Faço mal? | Eduardo Sá

A prova de que há boas mães é que elas têm a mania de ser perfeitas. Na verdade, para que as mães consigam ser melhores que as suas próprias mães não basta a cada mãe ser como é: apaixonada, dedicada, generosa e “em alta rotação”. Precisa de ser perfeita. E precisa de sentir que está em todo o lado ao mesmo tempo. Precisa de uma checklist na cabeça, todos os dias: “Como é que correu a escola?”; “O que é que foi o almoço?”; “Tens trabalhos de casa”; ou “Amanhã tens de levar a flauta!”. Precisa de ser amiga do preciosismo (e, por mais que um filho tente persuadi‑la do contrário, precisa de descobrir que ele nunca lava bem a cabeça).

Eduardo Sá
Precisa de rivalizar com Agatha Christie e arrasar, num impulso, os “crimes perfeitos” das crianças que acabam, invariavelmente, às mãos do “instinto de adivinhar” de qualquer mãe (quer quando ela resgata pacotes de leite vazios das costas do sofá; quer quando, de forma intimidante, pergunta: “Tens mesmo a certeza que me estás a dizer a verdade?...”; ou quando descobre que – por esquecimento, claro – um filho não lhe deu o último teste para assinar). E precisa de se esganiçar de manhã.
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De barafustar enquanto arruma os brinquedos. E de ficar à beira dum ataque de nervos sempre que um filho reconhece que é contra a sua natureza ser tão “hiperativo” como ela. A prova de que há boas mães é que todas elas têm a mania de ser perfeitas. Mas, não satisfeitas, passam a vida a perguntar: “Faço mal?”
Seja como for, muito mais por influência dos técnicos que por sua vontade, há cada vez mais mães assustadas com a educação, querendo ser mães sem erros nem riscos. Mães um bocadinho “exemplares”. Amigas dos manuais ou dos blogues de instruções. Como se, em vez de serem unicamente mães, precisassem de ser “tecnocratas da parentalidade” ou, pior, especialistas em “criançologia”.
Mas, afinal, o que é que as mães não fazem bem?...