As mães estragam as crianças, sim! | Eduardo Sá

...Mas nós adoramos que elas sejam assim!
Afinal, quem é que levanta as crianças, todos os dias, e se dispõe ao papel (maléfico!) de as proibir de dormir mais cinco minutos, e se esgadanha contra os seus dedos papudos que reclamam “mais desenhos animados já!”? E quem é que as apressa a vestir e as obriga a engolir o pequeno‑almoço, quase sem respirar? E quem é que as intima a lavar os dentes (depressa!), antes de as ameaçar que vão de cuecas para a escola se não descerem (a correr!) para o carro, e, depois de esbracejarem contra o trânsito, vão numa correria deixar a miudagem, que cansa só de ver? E quem é que deve sofrer de dupla personalidade e, depois dos ataques de nervos de todas as manhãs, passa da fúria de leoa à maior de todas as ternuras e pespega um beijo inimitável, e dá um sorriso cheio de luz, e abraça, e diz “a mãe ama‑te tanto!!!!”, enquanto aconchega os caracóis e chama “príncipes” e “princesas” a crianças normais e ensonadas? As mães!

E quem é que sai mais cedo do trabalho e, cidade acima, cidade abaixo, anda numa “roda‑viva” entre a escola, a piscina, o inglês, o futebol e a música, e transforma o porta‑bagagens dum automóvel numa parafernália de mochilas, flautas, chuteiras, lanches, touca, toalha e óculos, e ainda tem tempo para as perguntas mais tolas que só as pessoas bondosas conseguem fazer (como, por exemplo: “Como é que correu a escola?” ou “O que foi o almoço?”) e – oh canseira! – fica parecida com a Cruela sempre que uma criança responde: “Correu bem.” ou “Não me lembro.”?... As mães!
E quem é que, depois do trabalho, barafusta o tempo todo contra os trabalhos de casa mas que, ainda assim, franze a sobrancelha e – com um orgulho mal disfarçado – diz, num tom solene mas, todavia, aconchegado: “Eu não sei como é... Se eu não estiver sempre ali ao pé, ele não faz nada!...”? As mães?
https://www.leyaonline.com/pt/livros/familia/querida-mae/E quem é que tem a mania de dizer: “O meu filho não gosta de ser contrariado!”, para justificar as 200 vezes que se chama uma criança para saltar para o banho, as outras 200 que são precisas para a convencer a deixar os desenhos animados para vir jantar, não esquecendo mais 200 suplementares em que repete, devagarinho: “Come a sopa!” e acaba a ribombar: “Despachas‑te ou não?...”, antes de lhe dizer: “Abre lá essa boca, já!” (enquanto despeja as últimas colheres de sopa pelas goelas dum filho)? As mães!