Quando a Mãe nos aconchega | Eduardo Sá

Mas, afinal, quem é que inventou que a mãe é sempre bondosa, sempre zen e sempre mimenta?

É, por acaso, verdade que a mãe nasça, "de série", equipada com tanta e tamanha bondade que, mesmo quando está pronta para "cair para o lado", de exaustão, rasgue um sorriso, dê um afago e fale baixinho? Pode até fazer isso, sim. E depois?... E da fúria da mãe, será que ninguém fala?   É, por acaso, mentira que a mãe, quando nada o faz esperar, se transforma num "tornado" e leva tudo à sua frente, começando por pegar com a prata de um chocolate que se aconchegou, para uma sesta, entre as almofadas do sofá, ou com uma lata de refrigerante (que não incomodava ninguém!), só porque, ela espera, há dias - cheia de paciência, num canto sala - pelo momento certo para dar "um saltinho" até à reciclagem?

Mas, afinal, quem é que inventou que a mãe é sempre bondosa, sempre zen e sempre mimenta, quando nos fala? Não é verdade!
A fúria da mãe é imprópria para cardíacos. Eleva o cortisol. Põe-nos a tiróide aos solavancos. Estraga-nos o dia! E porquê? Porque a mãe se acha no direito de se tomar de fúrias e exigir, exigir, exigir! Mas quem é que a mãe pensa que é? Deus, por acaso? E porque é que a mãe não faz de pai, não aprende com a sua jovialidade, nem cultiva essa tendência para a distracção que o pai preza mais, ainda, do que os seus bicípites? Por que é que mãe quer controlar tudo e mais alguma coisa? Mas pode um adolescente ter a sua personalidade e um brio a defender, e pode ser escrupuloso nos seus pontos de vista e ir em contra-mão com as perspectivas da mãe, mesmo que, aos olhos dela, pareça "estar sempre no contra" e "enxofrar-se, por tudo e por nada"? Poder, pode. Mas não devia. Aos olhos da mãe, claro.
Se é muito difícil ser adolescente e ser filho, ao mesmo tempo, ser adolescente e filho duma mãe que ocupa muito muito espaço faz da nossa vida um drama. Ou um inferno, mesmo. Porque a mãe nunca cede à primeira. Porque nunca embarca no nosso olhar mais cândido e faz um uso indevido do seu "dedo que adivinha" e, telepaticamente ou seja lá com que super-poderes, acaba sempre a desmascarar-nos, por mais que uma pessoa só tenha faltado a um apoio, ou ainda só esteja a preparar-se para fazer de conta que se esqueceu de lhe mostrar um teste com um nota que se constipou.

Mas, afinal, quem é que inventou que a mãe é sempre bondosa, sempre zen e sempre mimenta? Não é verdade! 

A fúria de mãe põe-nos em sentido. E não devia. E seu lado chato, irrita-nos. E não merecemos. E, depois dela nos levar ao limite quando, no final do dia, nos aconchega a roupa e nos diz, ao ouvido "Meu amor...", e devíamos vociferar, o que é que fazemos? Desfazemo-nos todos. E não passamos sem ela. Às vezes, há qualquer de irritante nisto tudo...