Mas, afinal, quem é que inventou que a mãe é sempre bondosa, sempre zen e sempre mimenta?
É, por acaso, verdade que a mãe nasça, "de série", equipada com tanta e
tamanha bondade que, mesmo quando está pronta para "cair para o lado",
de exaustão, rasgue um sorriso, dê um afago e fale baixinho? Pode até
fazer isso, sim. E depois?... E da fúria da
mãe, será que ninguém fala? É, por acaso, mentira que a mãe, quando
nada o faz esperar, se transforma num "tornado" e leva tudo à sua
frente, começando por pegar com a prata de um chocolate que se
aconchegou, para uma sesta, entre as almofadas do sofá, ou
com uma lata de refrigerante (que não incomodava ninguém!), só porque,
ela espera, há dias - cheia de paciência, num canto sala - pelo momento
certo para dar "um saltinho" até à reciclagem?
Mas, afinal, quem é que inventou que a mãe é sempre bondosa, sempre zen e sempre mimenta, quando nos fala? Não é verdade!
A fúria da mãe é imprópria para cardíacos. Eleva o cortisol. Põe-nos a
tiróide aos solavancos. Estraga-nos o dia! E porquê? Porque a mãe se
acha no direito de se tomar de fúrias e exigir, exigir, exigir! Mas quem
é que a mãe pensa que é? Deus, por acaso? E
porque é que a mãe não faz de pai, não aprende com a sua jovialidade,
nem cultiva essa tendência para a distracção que o pai preza mais,
ainda, do que os seus bicípites? Por que é que mãe quer controlar tudo e
mais alguma coisa? Mas pode um adolescente ter
a sua personalidade e um brio a defender, e pode ser escrupuloso nos
seus pontos de vista e ir em contra-mão com as perspectivas da mãe,
mesmo que, aos olhos dela, pareça "estar sempre no contra" e
"enxofrar-se, por tudo e por nada"? Poder, pode. Mas não devia.
Aos olhos da mãe, claro.
Se é muito difícil ser adolescente e ser filho, ao mesmo tempo, ser
adolescente e filho duma mãe que ocupa muito muito espaço faz da nossa
vida um drama. Ou um inferno, mesmo. Porque a mãe nunca cede à primeira.
Porque nunca embarca no nosso olhar mais cândido
e faz um uso indevido do seu "dedo que adivinha" e, telepaticamente ou
seja lá com que super-poderes, acaba sempre a desmascarar-nos, por mais
que uma pessoa só tenha faltado a um apoio, ou ainda só esteja a
preparar-se para fazer de conta que se esqueceu
de lhe mostrar um teste com um nota que se constipou.
Mas, afinal, quem é que inventou que a mãe é sempre bondosa, sempre zen e
sempre mimenta? Não é verdade!
A fúria de mãe põe-nos em sentido. E
não devia. E seu lado chato, irrita-nos. E não merecemos. E, depois dela
nos levar ao limite quando, no final do dia,
nos aconchega a roupa e nos diz, ao ouvido "Meu amor...", e devíamos
vociferar, o que é que fazemos? Desfazemo-nos todos. E não passamos sem
ela. Às vezes, há qualquer de irritante nisto tudo...





